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ESCARNIO E MALDIZER
21-12-2003
Os sites da Idade Média, ainda na língua galaico-portuguesa que antecedeu a nossa linguagem atual, compunham suas cantigas de escárnio e maldizer para debochar, ofender e blasfemar.
De lá para cá, muitos foram os poetas malditos e iracundos que apedrejaram os clérigos e os literatos libidinosos, os políticos corruptos e os literatos adocicados, desde Gregório de Matos, passando por Bocage e culminando com a ira antiburguesa de Oswald de Andrade, (a forma mais lírica) de Thiago de Mello e a mais visceral de Ferreira Gullar.
(Talvez falte em mim a esperança que sobrava neles!)
Uma fantástica e prolixa tradição, que sofreu as perseguições da Santa Inquisição, os horrores do salazarismo e as brutalidades da (autoproclamada) Revolução de 1964.
Triste é reconhecer que o autoritarismo e a megalomania vicejam em todos os regimes políticos, da esquerda à direita, em qualquer direção e em todas as épocas.
(Antes o Inimigo era ostensivo, agora é contaminado. )
Sirvam os versos deste longo poema (a seguir...), se não mais do que para isso, como o desabafo de um cidadão perplexo. Perplexo e atônito diante da violência e da corrupção generalizada dos dias atuais, ainda que — reconheça-se — cada vez mais denunciadas pela imprensa e perseguidas por boa parte da sociedade e mesmo do governo que (ainda) não se rendeu aos esquemas vigentes de promiscuidade entre o crime organizado e parcelas do poder instituído.
MALTHUS
tantagentetantaemtodaparte
gentegentegentegentegente
e tão somente
a terra soterrada de corpo
anticorpos corpos entulhados
empilhados em contêineres
um cemitério congestionado
de corpos centrifugados
transfigurados
transformados em repulsas
rebrotando como ervas daninhas
como seivas leitosas pestilentes
como sementes plúmbeas errantes
corpos defumados frios
congeladas em câmeras
em esquifes, armários
dependurados de cabides
enforcados nos açougues
estendidos no varal ao sol
depositados em cofres
de usu(r)ários enganados
sem qualquer valor de troca
triturados para o gado ermo
ou transformado em patê
antropofágico se macabro
terra de corpos esfacelados
revolvida com estrumes
suas próprias entranhas
todas as gerações superpostas
em monturos, na degradação
de uma compostagem infinita.
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